sábado, 19 de dezembro de 2015



DA SAPIÊNCIA

- Quem tudo quer nada sabe!

Era sempre o que ele me dizia, como quem desejava intimamente mutilar a

vontade do outro. Achava estranha esta forma de estar no mundo, mas não lhe

dizia nada, até porque duvidava que fosse capaz de me entender. E deixava-o

falar horas sem fim, até não ser mais capaz de distinguir uma única das suas

palavras.

Nunca lhe disse que quem nada quer nada sabe, porque talvez não fosse capaz

de entender que o conformismo ou a falta de vontade é também uma forma

absurda de gerir a existência.

António gostava de se ouvir e eu era sempre o melhor espectador dos seus

monólogos. Não questionava, não criticava, nem sequer o ouvia.

Mas sempre fomos amigos. Nunca tinha pensado ser possível ter um amigo tão

diferente de mim, tão adepto das verdades absolutas, tão sedento de ter sempre

razão.

António punha o lixo na papeleira, e ninguém o via largar pacotes de fast food

na auto-estrada, pela janela do seu carro – apenas o fazia quando se certificava

de não haver ninguém por perto.

António era educado com as senhoras, deixava-as sempre passar à sua frente, e

nunca lhes dizia que deviam estar em casa a cuidar da roupa – tinha a mãe que

cuidava da sua impecavelmente, nos intervalos das dores provocadas pelas

artroses.

António defendia o respeito no trabalho, acreditava que as pessoas deviam ser

compensadas pelo seu esforço – a sua irrepreensível secretária seria substituída

em breve por Aline, famosa pelas suas curvas mimosas e pele acetinada.

António exigia que lhe limpassem as janelas do escritório todos os dias, porque

a limpeza seria sempre a maior das virtudes – colava macacos e pastilhas

elásticas debaixo do tampo da secretária, sempre que os negócios lhe exigiam

uma inteligência que lhe escapava.

António acreditava que a fidelidade era a expressão máxima do amor – todas as

semanas arranjava uma maneira de não amar a mulher.

António encorajava os colegas à greve, como a forma mais nobre de luta pelos

direitos – sempre que os colegas lutavam, passava as mãos em festas pela

cabeça do patrão.

António, António…

Um todo de coisas que nunca quis, um todo de coisas que sempre soube.

7 comentários:

  1. O António gostava de se ouvir, o ego do António era maior que o universo que o rodeava.Por isso era detentor de tantas verdades absolutas! Todo ele é um monólogo,o António.
    Excelente texto.:))

    ResponderEliminar
  2. Toino, Toino. De tanto bajular o patrão, acabou no olho da rua, como os que o antecederam e os que lhe seguiram. Era crente e acreditava no inferno, mas suicidou-se quando percebeu que todas as semanas a esposa também arranjava maneira (e upa, upa, que maneira) de não o amar. Ah, meu velho António. Voltaste a nascer e estás em todas as esquinas da cidade. Tantas vezes vais repetir o teu fado.

    Gostei muito disto, Zu. Manda bola. Beijos, do Toino Maradas

    ResponderEliminar
  3. ahahahah. Olha, olha, quem é ele. Tu não és Toino, ó Maradas!









    ResponderEliminar
  4. Mesmo no anti-antónio existe o mais jovem dos antónios.
    Je sui António... Mas eu, não sou antónio!
    Gosto de ler o que transcreves directo do coração pela tua consciência.
    Que a força esteja contigo!
    Dá-lhes com força!
    Beijo ;)

    ResponderEliminar
  5. 0lha... nunca tinha pensado que pudesse existir um antónio num anti-antónio. Mas sim, faz sentido. Que a força esteja connosco! :) Abracinho













    ResponderEliminar